LITERALIXO
   MORADA CAPRICORNIANA

Quem o visse ali, do outro lado da rua, estático, aparentemente distraído, observando aquela casa, imaginaria que... Provavelmente não imaginaria nada, apenas estranharia o fato de que já estivesse ali havia mais de duas horas.
Não por acaso usava uma calça marrom um pouco larga, tênis de corrida, uma mochila marrom e uma blusa de lã azul. O marrom, predominante em sua vestimenta, tinha uma função extra: a de ajudar a atrair capricornianos. Isso vinha bem a calhar, já que o signo da casa era capricórnio, pois ficara pronta ao final de dezembro. Já a cor azul era considerada sua cor da sorte, pois em todas as ocasiões em que algo consideravelmente bom lhe havia acontecido, ele reparara que vestia azul. Ah, finalmente conseguira entender o real sentido da cromoterapia: se as coisas não saíssem como o planejado, ao menos poderia atribuir o fracasso às cores.
O clima daquela noite não estava muito favorável a passeios ou a caprichos, fazia mais frio do que de costume e a chuvinha fina que melancolicamente caía somada ao forte vento que parecia querer quase tudo para si, formava um clima de morbidez e angústia que dificultariam qualquer iniciativa por parte dele. Se houvesse transeuntes, eles se espantariam com o jeito como o rapaz vestido de marrom contemplava aquela habitação.
Ele mantinha uma expressão que qualquer um provido de visão arriscaria denominar apaixonada e um ar distraído como se não houvesse mais nada além de si mesmo e daquela construção. Muitos considerariam doentio seu comportamento, ele próprio jamais se julgara lá muito normal, mas não se importava, pois desconhecia o que ganharia se tentasse ser como todos os outros.
Desde sempre tinha adotado o costume de guardar tudo unicamente para si, era a forma mais eficiente de proteger seus escassos segredos. Por outro lado, o forte sentimento que nutria por aquela edificação não merecia ser mantido em sigilo. Naquele momento assemelhou-se a todos os outros grupos minoritários. A diferença entre eles era apenas uma: seu grupo era tão exclusivo que nem ao menos bastava para formar uma minoria. De qualquer forma, isso era o que menos lhe importava.
Tanta idolatria tinha se iniciado no dia anterior, quando pôde visitar o cerne da casa. A feliz proprietária ? idealizadora do projeto que o deixara estupefato ? tinha alguns amigos em comum e os convidara para uma festinha inaugural. Não tivesse sido quase arrastado por esses semi-amigos até lá, ele próprio não teria ido. Abominava festas, comemorações e cerimônias de todas as ordens e, no entanto, não sabia bem o porquê, decidiu abrir uma brecha em sua agenda e, também inconscientemente, em sua alma.
Suas pernas paralisaram-se no exato instante em que se deparara com o pé-direito duplo do living. Seus olhos se encheram de entusiasmo ao ver as curvas da maravilhosa escada machadiana que dava passagem para um belíssimo jardim interno, e seu coração passou a bater com muito mais intensidade ao avistar uma piscina coberta, inteiramente dessemelhante de todas as outras por conta de seu formato inédito, assim como quase todos os itens da casa. A partir daquele dia, aquela casa passara a habitar sua mente em tempo integral, sem exagero ou desvario.
Na verdade, essa doce obsessão por sua casa, não exatamente por aquela, tinha começado três anos antes, quando ele idealizara cada detalhe da casa dos seus sonhos, a casa que ele construiria tão logo surgisse a primeira oportunidade. Não era uma casa qualquer, mas única, difícil explicá-la, mas facílimo exemplificá-la. E era isso o que a morada daquela moça significava: a concretização de seu sonho. Nada mais era do que um plágio descarado de seu projeto, por isso o rapaz de marrom sentia como se a casa fosse sua. E, de uma forma estranha, em breve poderia vir a ser.
Tanto excitamento por causa de uma simples casa poderia parecer bobagem ou mesmo infantilidade, mas ele tinha uma explicação perfeitamente crível para tal conduta. Partindo do princípio de que todos os seres humanos são únicos, cada qual com fantasmas personalizados e conflitos próprios a combater, cada um deveria ter um lugar tão exclusivo quanto si próprio. E, por alguma razão que desconhecia, sentia que aquele era seu lugar. Só lhe restava descobrir o porquê de outra pessoa estar morando lá. Entendia a impossibilidade de desvendar todos os mistérios acerca desta vida, mas este tinha planejado fugir à regra. Um motivo simples e verdadeiro para tal acontecimento era o de que outra pessoa o realizara primeiro. Assim sendo, era justo que ele (que amava aquela casa) não pudesse jamais morar ali?
A morada atual daquele rapaz abatido trajado de marrom em nada se assemelhava àquela casa pós-modernista que lhe residia o coração. Era um apartamentozinho minúsculo e impessoal, irremediavelmente desprovido de qualquer personalidade, deprimente e insosso. Não refletia nem um pouco o gosto de seu residente e, mesmo sendo razoavelmente confortável, não passava de um lugar aonde ele ia apenas para dormir.
Tudo era demasiado simples e insípido, o que o tornava cada vez mais infeliz. O mais irônico de tudo era que, até aquele fatídico dia em que conhecera a tal casa, nunca havia percebido o quão insuficientemente agradável era seu atual domicílio.
De repente sua mente clareou-se e ele compreendeu que a causa de sua infelicidade era a carência daquela casa. Até aquele instante, sua vida tinha se mostrado um angustiante equívoco, pois não conseguira o que precisava. E, a partir daquele instante, teve certeza de que atingiria o mais alto grau de felicidade que um humano pode atingir caso viesse a adquirir aquele imóvel redentor.
Ali, contemplando a charmosa varanda que contornava toda a casa, lembrou-se do sonho que tinha tido na noite em que a conheceu. Sonhou com a deliciosa silhueta daquela casa, com seu mobiliário sedutor e pós-moderno, sua fachada atraente, sua lareira invariavelmente flamejante...
Aquela casa tinha de ser sua! Havia muitas coisas sem as quais poderia viver e, definitivamente, ela não fazia parte desse grupo. Precisava possuí-la, precisava tê-la entre seus bens duráveis, entre seus sonhos realizados. Sim, havia um jeito de fazer isso, na verdade, vários. Dinheiro não era problema, problema era não tê-lo.
Desatou a planejar um jeito mais fácil de tê-la para si. Passou a noite passeando entre aquele incompreendido encantamento e o desejo de posse que o açoitava. Não sabia muita coisa, mas sabia que, um dia ela seria sua e que esse dia chegaria logo.
Quando seus planos pareciam muito bem atados, percebeu que já tinha amanhecido e então sentiu-se profundamente solitário, como jamais sentira antes. Arriscou-se a iniciar um diálogo com seu objeto de desejo e começou indagando sobre sua nomenclatura. As grandes moradas, quase todas as mansões (odiava esta palavra) dos livros que leu, tinham nome. Nomes como Little Paddocks ou Villa Saint Eugène... Mas ele não achava graça em nenhuma dessas designações, nenhuma delas era boa o bastante para seu futuro lar. Ainda não tinha pensado numa denominação, mas sabia que pensaria na mais bela de todas.
Não sabia como continuar. Tinha muito mais a dizer, pouquíssimo a ouvir e nada a comemorar. Sentia-se exausto e com frio, mas estranhamente bem. Decidiu voltar para seu insípido apartamento, precisava descansar, se livrar daquelas enormes olheiras.
Durante o banho, fantasiou sobre a sensação de se banhar no interior daquela casa. Como seria o banheiro? Teria mais de um? Por ser uma casa que havia sido perpetrada para uma ou duas pessoas, supunha que tivesse apenas um, pois mais que isso seria supérfluo. Ou nem tanto, já que era provável que tivesse dois, sendo um completo e outro, um lavabo, para os visitantes. Com uma inexplicável certeza, afirmou para si que um simples banho nas dependências daquela recôndita casa seria uma experiência inigualável. Mal podia esperar para experimentá-la, mas naquele momento, tudo de que precisava era de algumas boas horas de sono. Dormiu profundamente, até pouco depois das oito da noite e, ao acordar lembrou-se do saboroso sonho que havia tido, com a tal casa inclusa nele.



Escrito por Giselly Greene às 19h26
[] [envie esta mensagem] []


 
   MORADA CAPRICORNIANA (continuação)

Energia recarregada, farelos de biscoito na mesa, roupas pelo chão, jornais velhos esperando a coleta... hora de agir. Vestiu-se rapidamente, comeu qualquer coisa e, com uma desenvoltura que nem ele mesmo sabia que tinha, fez um arranjo com alguns galhos de camélias mesclados com cravos vermelhos e brancos.
Uma hora depois, armado com seu belo ikebana nagueire e sua inseparável mochila marrom, dirigiu-se ao que ele já assegurava ser sua futura residência. Encontrou-a tão linda e encantadora como quando a deixou e não pôde conter um sorriso. Ao passar pelo jardim, recolheu o jornal que parecia ter sido cuidadosamente colocado muitas horas antes no chão da varanda. Ao tocar a campainha, contraiu a certeza de que não poderia viver longe dali.
Esperou uns bons segundos antes de chamar novamente. Dessa vez arriscou olhar por uma janela e o que seus olhos presenciaram o impeliu a entrar mesmo sem ter sido convidado. Julgou que não houvesse ninguém em casa, e com base nisso concluiu que aquilo seria uma espécie de crime sem vítimas.
Decidido a entrar só faltava descobrir como, e essa era a parte mais fácil. Foi até a porta dos fundos, que dava acesso à cozinha branca lindamente ornada com tons cor-de-laranja e, após desculpar-se por quebrar um dos vidros da porta, girou a chave que estava do lado de dentro e entrou.
Uma vez no âmago da casa, sentia-se como um garotinho de cinco anos em sua primeira visita ao zoológico. Sempre ponderara que uma sala de estar necessariamente tinha de ser mais do que apenas confortável ou bonitinha, tinha obrigação de ser estonteante. Tudo devia ser delineado com o intuito de enfartar, de emoção e de deslumbramento, a quem tivesse a sorte de adentrar o espaço em questão. E aquela sala era exatamente assim.
Logo que seus pés tocaram aquele assoalho perfeito e a luz refletiu o encanto daquele ambiente, respirou longa e densamente, queria aproveitar ao máximo aquela atmosfera argentária onde o ar parecia realmente puro, como em nenhum outro lugar. Resolveu excursionar por todos os outros singularíssimos cômodos e, a cada ambiente em que se embrenhava, sentia-se ainda mais extasiado.
Certificou-se mais uma vez de que se encontrava a sós com a casa, então tirou uma câmera fotográfica da mochila e desatou a fotografar cada detalhe que descobria, inebriado de prazer. Depois de explorar cada adorável centímetro de cada ambiente, resolveu medir seu objeto de desejo.
Era de se imaginar que, horas antes ele tivesse planejado cautelosamente cada item que levaria em sua mochila, mas tal alternativa estaria, de certa forma, equivocada. Independente do local para onde ia, sempre levava consigo objetos como uma boa e confiável fita métrica, cordas e outros apetrechos cujo uso até aquele dia tinha sido raríssimo.
Desde menino sustentava manias assim, estranhas para a maioria que, a propósito, costumava estranhar quase tudo, mas jamais tinha se deixado abater por algo tão insignificante quanto o reles julgamento alheio. As poucas pessoas de seu conhecimento também tinham manias consideradas excêntricas, como a garota que sempre levava consigo um isqueiro, sendo que ela não fumava e também jamais o havia utilizado para qualquer outro fim.
Ora, o grau de esquisitice dessas pessoas não era maior do que o QI dos que as subjugavam. De repente, enojou-se desse mundinho hipocritamente livre em que fingimos viver e cogitou sobre a idéia de que talvez essa liberdade da qual tanto nos gabamos usufruir seja apenas o livre-arbítrio para optar por se render ou continuar a pelejar. Mas, numa noite de sonhos quase realizados certamente não havia espaço para pensamentos soturnos como esses.
Continuou a medir a casa e percebeu que sua aposta inicial se mostrara inexata, pois o total da metragem era muito superior ao que acreditava ser. Por fora não parecia grande, mas em suas entranhas, era suntuosamente espaçosa. Além do mais, sua silhueta não era “apenas” de uma beleza assustadoramente simples, tinha ainda inúmeras outras facetas a serem admiradas. Eram tantas e igualmente inacreditáveis suas extraordinárias qualidades que todo o tempo de que dispunha não lhe permitia que enumerasse todas. Sua alegria e contentamento tinham atingido níveis nunca antes alcançados, mal podia acreditar na própria sorte. A sorte que era estar ali, e curtir aquelas memoráveis horas naquele recinto fascinante.
Passou aquela encantadora noite assim, em um estado de deslumbramento ímpar que só foi quebrado pelo suave ruído de chave cutucando a porta principal.
Não precisava de companhia, estava muitíssimo bem, apenas ele e a casa. Havia mais alguém para arruinar sua noite, mas ele estava decidido a evitar tal tragédia a qualquer custo.
No entanto, numa atinada mudança de planos, decidiu que o melhor a fazer naquela circunstância era simplesmente desaparecer dali antes que a residente (que ele supunha ser a intrusa que tinha vindo dissolver sua alegria) desse por sua presença.
Então extraiu o máximo daquele ambiente, foi o mais feliz que pôde, enquanto pôde, despediu-se com um sorriso de gratidão e, sapatos na mão, caminhou, sorrateiro, para a ala sul, por onde havia entrado e por onde sairia. Ao observar os cacos de vidro da porta, seus pensamentos enevoaram-se, mas justificou-se não apenas a si mesmo, afirmando com uma convicção pueril e concomitantemente sábia, que o amor sempre machuca. Então pegou sua carteira, tirou algumas pratas para garantir o conserto da porta e saiu dali o mais rápido que pôde.
No caminho de volta à sua desenxabida casa visualizou as sedutoras curvas daquela edificação, que por muito tempo permaneceriam frescas em sua memória. Pensou também que deveria considerar-se um exímio traidor, já que fora elícito por outro domicílio. Seu apartamento estaria se “sentindo” rejeitado, ridículo, desnecessário.
Pensando nisso, resolveu ser mais complacente com ele, pois até então, aquele tinha sido o único lar que ele conhecia, o único que sempre o protegeu. Levado mais por esse sentimento de culpa do que propriamente por amor, resolveu levar-lhe um presentinho e escolheu uma exímia falsificação de um Kandinsky que ele julgou muito bem-feita, para enfeitar a parede do corredor que ligava a copa à sala de estar.
Já na segurança de seu gélido apartamento, permanecia eufórico graças às lembranças recentes daquela aventura recém-realizada. Preparou um café forte e amargo e através de sua sinóptica janela observou que nascia um novo e solitário dia, mas não se deixou abater. Ao invés disso, pegou sua máquina fotográfica, acoplou-a ao computador e passou toda a manhã se deliciando com as esplêndidas imagens de sua amada.
Ao ver as várias fotos da faustosa escada, lembrou-se do ikebana que havia levado. Afinal, onde o teria deixado? Se bem que isso já não importava tanto assim, pois denotava apenas mais um vestígio de que alguém tinha estado lá. Dadas as circunstâncias, também devia admitir que não fora muito cuidadoso ao estilhaçar a porta ao entrar. E ainda havia o dinheiro como uma terceira prova de sua presença não-solicitada.
De qualquer forma, não estava muito preocupado com nada disso, pois sua noite havia sido, de longe, a melhor dos últimos anos... Embora não soubesse exatamente de quantos anos estava falando, pois não conseguia lembrar-se de nenhum acontecimento feliz ou apenas bom que lhe houvesse ocorrido.
Tentou desviar seu pensamento para sua rival, a moradora. Estaria ela pensando que sua encantadora casa tinha sido invadida por um débil mental cujas forças intelectuais não lhe permitiram nem ao menos tentar disfarçar que tinha estado ali? Poderia também estar imaginando que algum psicopata a perseguia e que tinha entrado em sua casa para mostrar um pouco de seu poder sobre aquela jovem indefesa. Ou que tinha uma espécie de admirador secreto, afinal, o intruso lhe havia trazido flores.
Essa última teoria em particular era a mais cabível na opinião geral dos policiais que ela havia acionado. Estava mais do que claro que nenhum deles tinha levado aquela denúncia a sério, afinal, tudo exceto a porta, permanecia intacto. Ela, ao contrário, estava apavorada com a idéia de ter tido sua privacidade exposta daquela forma. Abominava a idéia de ter perdido o controle sobre sua casa, seu amor, sua vida. Para que se sentisse mais segura decidiu convidar alguém, assim não passaria a noite sozinha.
Tal ação poderia ser descrita como totalmente desnecessária, pois nosso intruso não planejava atacar pelos próximos dias. Reconhecia que tinha passado um pouco dos limites e, além do mais, ainda estava deliciando-se com as lembranças que havia apanhado. As fotos eram como pequenas obras de arte, traduzindo em fabulosas imagens estáticas aquele ambiente extremamente charmoso e acolhedor. Claro que não era tão difícil atingir resultados semelhantes, pois aquele lugar era como o paraíso. E ele, como o excelente fotógrafo amador que se considerava, não podia deixar de se deleitar duplamente com aquelas primorosas fotos.
Avaliava aquela afortunada residente sua inimiga e apesar de desaprovar inteiramente quase todas as formas de violência, não podia deixar de cultuar a violência justificada. Sabia que precisaria dar um jeito nela e aquela casa lhe havia concedido um poço de justificativas.
Como o faria ainda era um mistério, que esperava solucionar muito em breve, não se tratava de nada que umas horas de bom planejamento não resolvesse. Não poderia deixar que nada obstruísse o luminoso caminho rumo a seu objeto de desejo. Já tinha uma idéia de como tratar do assunto, mas ainda era uma idéia primária e, como tal, precisava ser devidamente lapidada. Jamais tinha feito algo parecido, mas sentia-se seguro em relação a certos sentimentos que inevitavelmente viriam à tona depois de concluído seu plano, por isso agiria como se fosse uma simples tarefa a ser executada. O que não seria nada difícil, pois pelo seu ângulo de visão, o ato em questão não passava disso. Fazendo isso não estaria de forma alguma traindo seus princípios éticos como ser humano, estaria apenas vencendo uma batalha, para variar.
Certa vez, ouvira alguém dizer que se cometem crimes por ciúme, por ignorância, por falta de ocupação mais socialmente aceita e por outras centenas de motivos, mas que jamais se mata por amor. Não tinha uma idéia muito clara do porquê, mas não conseguia discordar deste argumento. Não sabia por que tinha relembrado aquela citação, mas pensou que isso fosse um sinal. Um sinal de que sua consciência há muito adormecida já se encontrava totalmente desperta e ainda não tinha percebido.
Não importava, não havia ainda um plano concreto, nem mesmo isso precisaria desfazer. Infelizmente, manter a paz com sua consciência lhe custaria um preço que considerava alto, que implicava em manter o problema. Precisava admitir que se tratava de um valor bem salgado, mas ainda assim, justo. A partir daquele instante passou a desejar ser mais impulsivo, pois se assim fosse, estaria bem mais próximo da realização de seu único sonho.
Passaram-se alguns dias antes que ele ganhasse o duelo que havia travado contra sua prudência. Ultimamente, mais especificamente, após aquela inesquecível noite com a casa, vinha negando a real necessidade de revê-la. E, numa singela tarde, rendeu-se a sua veleidade. O clamor por revê-la era verdadeira e incontrolável, não se tratava de um capricho. Assemelhava-se muito mais a um vício, sentia que a atmosfera daquele ambiente encantador havia substituído boa parte de suas células de forma que nem mesmo ele poderia explicar. A loucura, que durante toda a sua vida tinha-o perseguido finalmente o tinha encurralado? Não podia aceitar sua própria teoria, mas também não podia encontrar outra explicação lógica.
Precisou usar todo o autocontrole que até então não julgara ter para impedir que o demônio do desespero o chicoteasse. Ao menos se descobriu forte e isso o tornou menos infeliz por alguns minutos. O que não entendia era como a paz de espírito podia ser tão terrivelmente dolorosa, gostaria que houvesse alguém para responder-lhe. Num instante pensava ter sido destituído de seu lado humano, no outro já se culpava por ter tido pensamentos que ele mesmo passara a considerar enjeitáveis. Sua consciência o havia traído a fim de trancafiá-lo no porão de angústia no qual se encontrava. Mas nada o impedia de revidar... A não ser, é claro, o fato de que seu plano era péssimo e, caso fosse posto em prática, extinguiria todas as chances de conquistar a tão idolatrada casa. Por outro lado, não podia ficar de braços cruzados até que fosse corroído por aquela imitação de paz a que havia se sujeitado.
O barulho da campainha da vizinha o trouxe de volta a realidade e, ao observar à sua volta, sentiu-se estranhamente abatido. O estado em que seu apartamento se encontrava era deplorável. Havia xícaras de café e embalagens de chá gelado por toda parte. Uma pilha imensa de jornais antigos se amontoava num canto da saleta embolorada. A cozinha estava completamente inabitável, a não ser para ratos e alguns insetos indesejáveis.
Num sobressalto começou a organizar aquela bagunça da melhor forma que podia, afinal, já que logo se mudaria dali, teria que entregar o apartamento limpíssimo ou, no mínimo, apresentável. Enquanto arrumava, recordou as circunstâncias nas quais tinha chegado ali. Aquela tinha sido sua primeira morada em liberdade, após deixar a casa de seus pais às pressas.
LIBERDADE!
Liberdade, fria liberdade... que representava declínio.
Sim, aquele lugarzinho medonho há muito havia servido muito bem ao propósito de um verdadeiro lar, mas entrara numa insalubre decadência. Sim, ele ainda dispunha de certo valor sentimental, mesmo que bastante obscurecido por sua nova paixão, é verdade, mas ainda existia um valor implícito. Resolveu que o melhor a fazer era redesenhar seus pensamentos e até que uma nova idéia brotasse da sua mente recém-purificada, conformar-se-ia com o que tinha.
Entretanto, jamais deixaria de amar aquela adorável casa de paredes alvas realçadas por acessórios de cores vibrantes, apenas por consideração a sua atual morada. Sempre sentiria mais falta daquela encantadora residência do que ela poderia vir a sentir dele, mas isso não o entristeceu, apenas o deixou um pouco cítrico.
Assustou-se ao perceber sua intensa capacidade de amar, mas orgulhou-se disso. Não era possível que um sentimento tão intenso e arrebatador o tornasse assim tão monstruosamente diferente de todo o resto da humanidade. A existência de algo tão pleno de beleza tornava mais aceitável a idéia de que um ser humano razoavelmente inteligente e perfeitamente são pudesse cair de amores por um ser inanimado. E não é sempre que temos a chance de tornar a vida menos difícil.
Com pensamento como esse, terminou de limpar o apartamento e, no intuito de abstrair-se de si mesmo por algumas horas ou apenas para espantar o tédio, decidiu alugar um vídeo. Prevendo o inegável monopólio regido pela digitalização, temia que em pouco tempo não houvesse mais nada disponível em VHS, portanto, aproveitaria enquanto ainda existia.
Desceu pelas escadas, pois tinha um sério problema com elevadores e, em poucos minutos já caminhava tranqüilamente pela rua principal. Cortou caminho por um canteiro de obras e em poucos instantes chegou a videolocadora. Entrou tão apressadamente a ponto de nem perceber a agitação que havia lá dentro. Mas, logo um simpático sujeito vestindo calça e blusa marrons, fez questão de informá-lo do que estava ocorrendo e, em seguida, transformou aquela tarde pacata na sua última tentativa de viver.

 



Escrito por Giselly Greene às 19h25
[] [envie esta mensagem] []


 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]  
 
 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Informática e Internet, Saúde e beleza, Veganismo


HISTÓRICO



    OUTROS SITES
     Roteiros Cinematograficosérrimos
     Rock Brasília
     Sociedade Vegetariana Brasileira
     Vegetarianismo
     Frente Brasileira para Abolição da Vivissecção
     Objetivo 2015
     Ceticismo Aberto
     Diário Ateísta
     Taedium Vitae
     Bíblia do Cético
     e-farsas
     Sétimo Projetor
     Cinema Cultura
     My 1000 Movies
     SpringNightFieldCrawler
     Brazil Series
     Movimento Cinema Livre
     Des-oriente
     Mídia@Mais
     Mídia Sem Máscara
     Cinema Italiano
     Quero Ser John Malkovich
     Psicoo
     SuperS
     Toque Musical (Discos raros)
     Boca Aberta (Curiosidades)
     Site de Curiosidades
     Cataclismo cerebral
     O mestre da Lixoteratura
     As melhores e piores listas do mundo
     Magrelus
     Você Sabia?
     Roteiros de seriados
     desfavor
     Alcoopop
     Bookess


    VOTAÇÃO
     Dê uma nota para meu blog!